Na Fazenda dos Cordeiros o Turismo EcoRural, como gostamos de definir, é interpretado, atualmente, como uma alternativa possível para o desenvolvimento territorial, principalmente em áreas protegidas, como as nossas RPPNs e a Bacia Hidrográfica do Rio São João, sobretudo como consideramos os princípios de mínimo impacto e participação da comunidade local no processo.
Na Fazenda dos Cordeiros, nossa agricultura orgânica no sistema Sintropico de Agrofloresta, como defendido por Ernest Goest, traz a possibilidade de uso múltiplo dos recursos florestais. Este sistema tem sido desenvolvido diretamente relacionado as estratégias de planejamento defendidas pelo Movimento Silva Jardim Sustentável, centradas em uma discussão ética sobre sustentabilidade, sem colocar em risco a integridade do patrimônio cultural e natural além de garantir a inclusão social.
As RPPNs, Cachoeirinha, Rabicho da Serra e as demais áreas de reserva legal da Fazenda dos Cordeiros constituem um modelo de Turismo EcoRural em área protegida, concebida sob a lógica de integração sociedade e natureza. Esta abordagem tem o olhar psicossocial como seu fio condutor e revela que os moradores locais entendem o EcoRural como potencialidade para o desenvolvimento local.Mas para tal, trabalhamos constantemente a mobilização, capacitação e organização para que esta prática seja implementada, a partir de decisões coletivas e controle das ações empreendidas, com o compromisso de melhoria da qualidade de vida e proteção da biodiversidade.
Na Fazenda dos Cordeiros trabalhamos nos últimos 25 anos em busca por modelos de desenvolvimento sustentável para a vida rural em plena Mata Atlântica, que conciliem crescimento econômico, equidade social e conservação da biodiversidade. O desafio é grande diante de um modelo de desenvolvimento, baseado na economia capitalista e globalizada, e de interesses e ações conflituosas, em diferentes escalas geográficas. Segundo Becker (2005), em nível global, a Mata Atlântica e a Amazônia é percebida como espaço a ser preservado para a sobrevivência do planeta, devido à sua alta biodiversidade. Em âmbito nacional, a percepção dominante é associada ao elevado valor ecológico. A comunidade do Imbaú, principalmente os jovens demandam projetos governamentais de incentivo ao seu desenvolvimento, que se fundamentam nas peculiaridades locais, principalmente, no sentido de conter o forte êxodo rural, ordenar o território e promover a melhoria da qualidade de vida.
A Fazenda dos Cordeiro exerce um papel moderador e animador do Movimento Silva Jardim Sustentável, que busca o desenvolvimento de consenso entre os socioambientalistas e os novos modelos, ciências e tecnologias, que consideram a importância do patrimônio natural e a cultura tradicional da região, como os melhores caminhos para o desenvolvimento desejado. Com este objetivo, importantes iniciativas estão em curso, na busca de alternativas para a superação dos problemas identificados na região, que incluem a baixa escolaridade,limitadas oportunidades para o desenvolvimento econômico, limitações de acesso às novas tecnologias de produção, dificuldade de escoamento de produtos locais, carência de infra estrutura básica e ausência de políticas públicas direcionadas às demandas de desenvolvimento sustentável, dentre outras.
A Fazenda dos Cordeiros, a Associação do Mico Leão Dourado, a Verde Ser e o Instituto Rios Verdes, dentre outras tem um papel protagonista no processo, uma vez que tem atuado baseado em um modelo de ocupação do espaço e uso dos recursos naturais voltados, principalmente, para sua subsistência e uso de tecnologias de baixo impacto, geradas e transmitidas pela tradição local
A proposta do Turismo EcoRural adotado pela Fazenda dos Cordeiros a se originou no modelo francês de Turismo Responsável, na Alsace, adotado pelo Parque Regional dos Vosges e foi concebida sob a lógica de integração sociedade e natureza. Este modelo de ocupação do território busca o uso racional dos recursos naturais renováveis e a proteção dos modos de vida e da cultura das populações tradicionais, sendo esse defendido por vários segmentos da sociedade civil organizada, como uma das alternativas para o desenvolvimento social, econômico, cultural e ecológico.
Mas embora no contexto atual, a importância de populações tradicionais para a conservação da biodiversidade e para a manutenção de serviços ambientais tenha reconhecimento global, a sua consolidação exige ainda a superação de inúmeros desafios. Na Fazenda dos Cordeiros entendemos que o uso múltiplo da floresta é a prática do Turismo EcoRural como uma importante alternativa econômica para o fortalecimento da cultura tradicional e a redução da pressão sobre os recursos naturais renováveis, como já descito por MORAES & IRVING, 2007.
O Turismo EcoRural é uma pratica sustentável de turismo, que pode representar uma alternativa possível para a conservação da natureza e a melhoria da qualidade de vida das populações locais, sobretudo por considerar princípios de mínimo impacto e participação das populações envolvidas, no que tange aos benefícios socioeconômicos gerados, como descrito por IRVING, 2002a; BARROS & DINES, 2000 a respeito do tradicional Ecoturismo.
É bom lembrar que na sociedade contemporânea, o turismo é reconhecido, como um dos setores econômicos de maior crescimento no mundo. Mas… é um fenômeno social complexo, que envolve o deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas por motivos de lazer, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural DENCKER, 2007.
De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), as estimativas para o turismo apontam para 2,1 bilhões de chegadas internacionais em todo o mundo, até 2030 (UNWTO, 2008). Neste contexto, o Brasil se encontra na 30ª posição no ranking de países mais visitados do mundo (SLOB & WILDE, 2008). Mas em um cenário de crescente demanda por lazer, as estatísticas de turismo e o discurso oficial, frequentemente, expressam concepções idealizadas dos benefícios possíveis gerados pelo desenvolvimento turístico, e tendem a mascarar e minimizar os impactos negativos socioambientais e culturais decorrentes deste processo (IRVING et al, 2005). Neste sentido, Ouriques (2005) aponta que o turismo tem reproduzido, ao longo dos anos, as contradições do sistema econômico vigente, aguçando a lógica do capital, quando se apropria dos espaços e seus recursos naturais e culturais.
No que diz respeito ao ecoturismo na Mata Atlântica, esse tem sido desenvolvido dissociado de estratégias de planejamento centradas em uma discussão ética sobre sustentabilidade, colocando em risco, frequentemente, a proteção do patrimônio cultural e natural da região e causando importantes impactos de exclusão social das populações locais, como salientado por Cruz (1999). Assim, o ecoturismo surge como uma “projeção distante na economia local, como uma possibilidade remota no mundo globalizado”, mas se configura como questão central para a reflexão acadêmica e para a possibilidade de distribuição de benefícios pelo uso dos recursos naturais renováveis (IRVING, 2006, p.46).
Por essas e outras razões é que defendemos o Turismo EcoRural, que entende e contempla as atividades do homem no campo, com a visão moderna de bens findáveis e desenvolvimento sustentável. Este contexto inspira alguns questionamentos norteadores da presente dissertação:
Como o Turismo EcoRural pode se tornar uma alternativa possível para o desenvolvimento sustentável e viabilizar o engajamento efetivo das comunidades locais?
Como superar o desafio de implementar o Turismo EcoRural como prática consistente com as demandas locais em áreas de preservação?
Como sair do enfoque mercadológico e operacional, para a reflexão e questionamentos que contribuam para uma compreensão do turismo, para além do viés técnico e administrativo, sobretudo para uma concepção de turismo como alternativa possível de desenvolvimento local, associado à análise das relações socioambientais geradas e reinventadas entre pessoas e localidades.
Esta experiência do Turismo EcoRural na Fazenda dos Cordeiros proporciona um verdadeiro “encontro na Mata Atlântica”, que remete ao estudo de Pimentel (2007), que considera o turismo como a arte do “encontro” e o estabelecimento de vínculos, entendidos no contexto do que Mauss (2003) denominou de “paradigma da dádiva”. Assim, o “encontro” entre a proprietário, turista e moradores envolve uma troca de valores, que estabeleceu nova forma de perceber e interpretar a dinâmica local, considerando, fundamentalmente os valores locais, no sentido da concepção de turismo que se deseja construir.
O ecoturismo, tal como se discute na contemporaneidade, origina-se nas décadas de 1970 e 1980, na mesma época em que o movimento ambientalista conquista muitos adeptos a favor da proteção da natureza e, a questão ambiental passa a fazer parte das preocupações de diferentes instâncias políticas globais, desde governos locais até os grandes organismos internacionais, entrando definitivamente na agenda dos grandes temas estratégicos mundiais. Isto ocorre, principalmente, com a publicação do Relatório Bruntland7, em 1987, pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, o qual chamou a atenção do mundo sobre a necessidade de se buscar novas formas de desenvolvimento, que atendesse as necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras de atenderem as suas próprias necessidades (CMMAD, 1991).
A proposta de Turismo EcoRural da Fazenda dos Cordeiros e como um despertar da sociedade para a preservação de áreas naturais de forma sustentável com a presença do homem rural. A natureza não é intocada, é sustentável onde a descoberta, a educação e o espírito de responsabilidade , e passa a ser um “argumento valioso” (LIMA, 2003, p.71). É o EcoRural tendo como inspiração o ambiente natural preservado, para não ser então interpretado, como uma possibilidade para a minimização da degradação dos recursos naturais e para o uso do ambiente natural de forma sustentável.
Acreditamos que progressivamente uma nova demanda de turistas, responsáveis, interessados em conhecer destinos ligados à natureza preservada, na busca de alternativas às formas convencionais de turismo aparecerão a partir da busca cada vez maior pelo contato com a natureza e os agentes e operadoras de turismo já começam a trabalhar com destinos turísticos associados à natureza preservada, buscando no “eco”, um diferencial de mercado e no “rural” sustentável, para fomentar o turismo. Assim, o aumento de demanda será acentuado.
Parcerias são importantes na Fazenda dos Cordeiros e a Associação do Mico Leão Dourado com o recém inaugurado Parque do Mico Leão Dourado em Silva Jardim, também se insere na discussão sobre o turismo responsável que queremos. Outras ONGs ambientalistas reconhecem nessa prática, grande potencial de arrecadação de recursos financeiros para a conservação da natureza, além da oportunidade para o desenvolvimento de iniciativas de educação ambiental (PIRES, 2002). As ONGs passam a ser um dos principais segmentos sociais envolvidos com a prática e a discussão sobre conceitos e ferramentas do Turismo EcoRural e do ecoturismo tradicional (RABINOVICI, 2008). Em relação à dimensão conceitual vinculada ao ecoturismo, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) adota o seguinte conceito:
Ecoturismo consiste em viagens ambientalmente responsáveis com visitas a áreas naturais relativamente sem distúrbios, para desfrutar e apreciar a natureza, juntamente com as manifestações culturais do passado ou do
presente que possam existir, e que ao mesmo tempo promove a conservação, proporciona baixo impacto pelos visitantes e contribui positivamente para o envolvimento socioeconômico ativo das populações locais (CEBALLOSLASCURÁIN9, 2002, p.27).
A International Ecotourism Society (TIES), que o define como: “Responsible travel to natural areas that conserves the environment and improves the well-being of local people” na verdade muito mais próximo do que chamamos Turismo EcoRural
O reconhecimento em nível mundial, da importância econômica, social e ambiental do ecoturismo, se consolidou com a designação do ano de 2002, como o Ano Internacional do Ecoturismo, pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o apoio da Organização Mundial de Turismo. Esse reconhecimento visou estimular governos, empresários, populações receptoras e os próprios turistas a dedicarem mais esforços para que o ecoturismo seja uma alternativa possível de desenvolvimento local (COSTA, 2002).
No Brasil, já em 1994, o Grupo de Trabalho Interministerial em Ecoturismo, que reuniu representantes do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo e o Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, além do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), e de empresários e especialistas no tema, elaborou “Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo”, considerando a seguinte conceituação para ecoturismo:
Ecoturismo é um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas (BRASIL, 1994, p.19).
O Turismo EcoRural praticado e defendido pela Fazenda dos Cordeiros não é apenas um turismo interpretado como uma viagem orientada para a natureza, mas também constitui uma nova concepção de turismo, tanto como prática social como econômica. Assim, o “ecorural” é um fenômeno social e tem como objetivo viabilizar a melhoria das condições de vida das comunidades locais, ao mesmo tempo, em que minimiza os impactos sobre os recursos naturais e culturais, compatibilizando a capacidade de carga e a sensibilidade de um ambiente natural e cultural com esta prática.
Finalmente o que melhor caracteriza a prática do Turismo EcoRural praticado na Fazenda dos Cordeiros:
- Envolve viagens a destinos preservados;
- Minimiza impacto a partir de uma conduta consciente;
- Incentiva uma consciência ambientalista;
- Promove benefícios econômicos diretos para a conservação;
- Fornece benefícios financeiros para as comunidades
- Respeita tradições e a cultura local;
- Apóia os direitos humanos e o processo democrático.
Última atualização em 16 de fevereiro de 2026 por Ayrton Violento