Que Turismo é esse?

O Turismo para Fazenda dos Cordeiros é uma atividade econômica de suma importância, um dos nossos pilares, que ao comercializar paisagens e lugares, se manifesta também como um fenômeno que produz diversas implicações sócio espaciais (culturais, ambientais, políticas, etc.).

Na Fazenda dos Cordeiros praticamos o turismo sustentável, o turismo que denominamos EcoRural, e o turismo rural na agricultura familiar (TRAF).

Partindo de uma abordagem geográfica e do debate contemporâneo em torno do turismo rural na agricultura familiar, a Fazenda dos Cordeiros concorda com Milton Santos (1996), onde procuramos, a partir do Imbaú, apreender com a influência do Turismo na gestão social local, que traz consigo, novos atores com intencionalidades distintas e com verticalidades que passam a influenciar as horizontalidades e o espaço banal.

O turismo é uma atividade que se expandiu vertiginosamente a partir da década de 1950, em virtude dos avanços técnicos – sobretudo nos transportes e nas comunicações, bem como nas conquistas trabalhistas que ampliaram o poder de consumo e o tempo livre para a classe trabalhadora. Becker (1996) indica que o turismo, a partir do final do século XIX, tornou-se gradativamente um novo produto de acumulação de capital, capaz de [transformar e] produzir espaços. Foi, porém, em meados do século XX que o turismo se expandiu de forma significativa, em função da política do wellfare state, da regulação do trabalho, do acesso a férias, da aposentadoria, dos transportes, e, portanto, da consolidação do consumo em massa pela sociedade.

Acreditamos no Turismo como uma das fontes de sustentabilidade da Fazenda em função do processo de globalização da economia e das técnicas, responsáveis pelo rápido crescimento das viagens no mundo, e, conseqüentemente, pela significativa receita proveniente desta atividade, .

A maior rapidez das informações através das redes de comunicação; a popularização do computador, da internet e de outros instrumentos tecnológicos; a ascensão do poder das corporações transnacionais em detrimento da soberania dos Estados nacionais; além da volatilidade e da virtualidade do capital financeiro frente ao capital industrial, são eventos responsáveis por transformações no modo de produção,
circulação e comercialização de mercadorias, com conseqüências na economia mundial, nos ecossistemas e na cultura das mais variadas etnias do mundo. Tais mudanças se refletem no espaço geográfico de forma heterogênea e distinta, porém os agentes e as ações responsáveis pela produção do espaço na escala global são relativamente homogêneos, ou seja, compostos pelos atores hegemônicos do sistema capitalista.

De maneira geral, estamos presenciando o poder das empresas, conglomerados e corporações de capital transnacional, nos países centrais, bem como nos periféricos, seja na indústria, agricultura, comércio ou serviços. Um exemplo dessa apropriação espacial da periferia pelo centro se dá nas paisagens exóticas e de interesse para a atividade turística, mediante uma série de investimentos em infra-estrutura, e novos equipamentos e serviços turísticos (geralmente padronizados), como os resorts, hotéis, restaurantes, operadoras, empresas aéreas, etc. Nesse sentido, o turismo se insere como mais um elemento que contribui para a apropriação do espaço pelos agentes hegemônicos do capitalismo globalizado, de modo que muitos símbolos do turismo são símbolos do poder do capitalismo.

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Apesar da grande ênfase que se atribui ao turismo como atividade que gera riqueza, o retorno econômico decorrente do turismo é relativo e deve ser questionado, não deve ser generalizado como solução para os problemas no campo, pois é comum a má distribuição dos lucros e dos benefícios advindos dessa atividade, lucros e benefícios geralmente centralizados nos empresários com maior poder de investimento, muitas vezes provenientes de fora dos lugares que se tornam destinações turísticas.

Além das implicações econômicas, o turismo também carrega consigo diversas transformações sócio espaciais de ordem sociocultural, política e ambiental. O turismo não é, portanto, responsável somente pelo intercâmbio econômico e geração de divisas, mas principalmente pela produção e pelo consumo do espaço geográfico, envolvendo aspectos como a transformação de paisagens, de ecossistemas e de manifestações culturais em mercadoria; e também é responsável pelo estabelecimento de novas relações sociais, levando a mudanças nos territórios e nas territorialidades.

Outro fator preponderante do turismo reside no debate sobre globalização e sobre padronização/singularidades. As destinações turísticas, apesar de possuírem atrativos diferenciados, costumam ser padronizadas pelo trade turístico, em relação à infra-estrutura, equipamentos e serviços turísticos. Os turistas buscam, porém, paisagens singulares que lhes proporcionem “novas” experiências, de modo que os atrativos turísticos têm que ser preservados, pois se constituem no principal elemento de motivação dos turistas. Assim, cria-se uma contradição entre os atrativos do lugar (que podem ser singulares e até únicos) e a organização do trade para viabilizar o turismo nesses lugares e atrair turistas de todo o mundo (fato que contribui para a padronização da infra-estrutura e dos serviços turísticos.

Na Fazenda dos Cordeiros o turismo é responsável por uma grande circulação de pessoas, mercadorias e dinheiro, que comercializa paisagens e lugares, e, por conseguinte, produz e transforma territórios e o próprio espaço geográfico que de certa forma nos traz algum protagonismo local.

.Assim como Adyr B. Rodrigues (2001) entendemos a importancia da interdisciplinaridade nas abordagens sobre o turismo, pelo fato de esta lidar com a dualidade sociedade X natureza5. Luchiari (2002) sugere aos geógrafos analisar o turismo para além de sua dimensão econômica, procurando apreender como o turismo modifica o território, a territorialidade e, conseqüentemente, o espaço geográfico.
Rodrigues (2001) ainda destaca os núcleos receptores como o local onde se produz o espaço turístico. A produção do espaço nas destinações turísticas seria, portanto, o objeto de interesse dos geógrafos dedicados ao turismo.

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Como já apontado por Coriolano (1989), por Rodrigues (1997b) e por outros autores brasileiros e estrangeiros, o turismo, apesar de
ser uma importante fonte de divisas em diversas localidades, apresenta conseqüências sociais e ambientais geralmente maléficas para as comunidades residentes nas áreas receptoras, sobretudo as mais carentes. Essas conseqüências, também chamadas de impactos, modificam a dinâmica socioespacial e, portanto, são passíveis de análises geográficas.
Levamos em conta que o fenômeno do turismo é agente de produção/transformação e consumo do espaço, entendemos ser pertinente a crescente preocupação da Geografia com tal questão.

Parcerias com as Faculdades de Geografia da USP e da UERG,  nos ajudam  a entender e analisar o turismo, sobretudo, por dois fatores: primeiro, porque o turismo se expande significativamente no mundo, apresentando-se como uma atividade que gera renda (para poucos), altera significativamente a paisagem, os territórios e o espaço geográfico, e tem como principal matéria-prima os elementos da natureza (praias, rios, florestas, desertos, montanhas, canyons, entre outros); segundo, pela popularização da idéia de que o turismo seria uma
atividade vinculada ao desenvolvimento sustentável, e que deveria ser incentivado no Brasil, em virtude do amplo potencial de paisagens e ecossistemas existente.
Permeando esses dois fatores, destaca-se o papel do incentivo ao turismo para a expansão do capitalismo. Na década de 1950, a nova fronteira de expansão do turismo ocorreu nas áreas litorâneas, com predomínio do modelo sol e praia, responsável pela urbanização de várias praias em função da rápida e massiva ocupação destas por empreendedores e, posteriormente, pelos turistas. Esse tipo de turismo trouxe impactos socioambientais para as áreas receptoras, passando a ser denominado turismo de massa, caracterizado pela alta concentração de turistas, e condenado por pesquisadores.
Já na década de 1990, a indústria do turismo passa a se interessar pela exploração de áreas “naturais”, abrindo novas possibilidades de acumulação por meio do ecoturismo e de outras formas de turismo ditas alternativas/sustentáveis, como o turismo rural, o ecoturismo, o turismo histórico-cultural, entre outros. Apesar do claro interesse por novos mercados, a retórica a respeito dessa transição para um turismo alternativo/sustentável ocorre porque os impactos negativos do turismo “sol e praia” (degradação ambiental, conflitos socioculturais, segregação espacial, urbanização acelerada, etc.), são vistos como decorrentes do mau planejamento e da má gestão do turismo, enquanto o ecoturismo e outras modalidades passam a ser propagados como formas de turismo que, além de causarem menos degradação ambiental e menos conflitos sociais, contribuiriam para a dinamização econômica de territórios, para a conservação dos ecossistemas e para a valorização da diversidade cultural, desde que fossem bem planejadas e geridas, com base nos princípios do desenvolvimento sustentável.

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Assim, nos últimos 25 anos, o Turismo  EcoRural da Fazenda dos Cordeiros vem sendo divulgado e promovido em todo o Brasil, sobretudo em virtude do potencial natural e paisagístico existente em Silva Jardim, a Terra do Mico Leão Dourado. Muitos defensores do turismo usam o discurso de que tal atividade apresenta poucos impactos socioambientais e amplia a geração de emprego e renda. Pesquisas da Geografia e de outras ciências humanas vêm demonstrando, no entanto, que esse otimismo é relativo, pois o turismo desencadeia diversas transformações espaciais e territoriais, transformações que geralmente trazem mais problemas do que benefícios para as comunidades residentes.
Influenciados pela popularização do ambientalismo e da idéia de desenvolvimento sustentável, muitos pesquisadores, a partir da década de 1990, passam a discutir a possibilidade de uma organização planejada da atividade turística, organização que, além do lucro, priorizasse também variáveis de conservação ambiental e a redução das desigualdades sociais, por meio de uma gestão territorial compartilhada através do envolvimento participativo das comunidades autóctones nos processos de planejamento, de monitoramento e de gestão do turismo.
A partir da apreensão dos principais impactos negativos da atividade turística, geógrafos e outros pesquisadores vêm debruçando-se na reflexão de “alternativas” ao atual modelo de desenvolvimento turístico. Consideramos relevante e pertinente a preocupação de geógrafos em relação a práticas de turismo que respeitem as culturas e os ecossistemas locais, bem como o aumento de estudos e pesquisas sobre as
implicações socioespaciais do turismo. Existem, contudo, diversas pesquisas que apresentam uma visão romântica e irreal do turismo, ao vê-lo como a grande saída para a estagnação econômica, e acreditar que basta planejamento e vontade política para minimizar ou até solucionar seus problemas.
Buscando sintetizar as linhas de interpretação e análise do turismo, Ouriques (2005) relaciona quatro correntes. A primeira, chamada de economicista/liberal, tem uma visão otimista do turismo e preocupa-se com seus aspectos econômicos; a segunda defende o desenvolvimento do turismo planejado pelo Estado, acreditando no planejamento como caminho para alcançar um “turismo sustentável”; a terceira, denominada pós-moderna, caracteriza-se pela crítica ao turismo de massa e pelo elogio à diferenciação do mercado turístico e ao turismo alternativo, acreditando no turismo como promotor de desenvolvimento; e a última corrente, pautada em enfoques críticos do
turismo, enfatiza o consumo e a produção destrutivos da atividade turística.

Acreditamos que o Turismo EcoRural praticado na Fazenda dos Cordeiros possa servir de modelo, pois estamos questionando todo um discurso dos benefícios potenciais o turismo rural na agricultura familiar.  Entendemos que, para promover  o turismo, é preciso analisá-lo de forma crítica, suas implicações socioespaciais, e relacionando-as ao debate teórico.

 

 

Última atualização em 12 de janeiro de 2026 por Equipe de Comunicação

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